quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

As Duas Mulheres


As Duas Mulheres (La Ciociara), 1960. Dirigido por: Vittorio De Sica. Roteiro de: Vittorio De Sica e Cesare Zavattini. Baseado no livro de: Alberto Moravia. Com: Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo e Eleonora Brown.

Dirigido pelo famoso diretor italiano Vittorio De Sica, de Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette), a produção franco-italiano As Duas Mulheres é um marco na história do cinema. O filme que revelou o talento de Sophia Loren mundo afora, ganhou o Oscar de Melhor Atriz, um ineditismo já que esta foi a primeira a conquistar o prêmio em um filme totalmente em língua não-inglesa. O filme conta a história de uma jovem viúva que mantêm um pequeno comércio de mantimentos na cidade de Roma durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Alvo de vários bombardeios ela juntamente com sua filha adolescente trilha o caminho de vários outros, abandona as cidades e busca refúgio na região rural. Fruto dos temas do neo-realismo o filme fala da situação da população rural da Itália, a queda do regime fascista de Mussolini e os problemas recorrentes das invasões, tanto pelas forças nazistas quanto posteriormente pelas forças dos países Aliados.
O neo-realismo fora um movimento cinematográfico italiano que surgiu logo após a 2ª Guerra, marcado por um forte cunho político com caráter de resistência as influências estrangeiras. O movimento tem suas origens ainda dentro do regime fascista, aprendendo as técnicas de propagação ideológica vindas da Alemanha nazista, a Itália de Mussolini também vai reestruturar toda a produção artística do país com o objetivo de manter e propagar seus ideais políticos e partindo dessa indústria artística que se forma, vai se restringindo cada vez mais a entrada de produtos vindos do estrangeiro, principalmente os filmes hollywoodianos. Acabado a guerra as forças aliadas vão tomar grande parte do chamado Comitato di Liberazione Nazionale (Comitê de Libertação Nacional), governo provisório no período de transição e reestruturação política na Itália e então a Comitato Temporaneo per la Cinematografia (Comitê Temporário para Cinematografia) vai começar a propor uma série de leis que regulamentem e fortaleçam a indústria nacional. Então se dá o choque de forças internas e externas que vai se tornar a gênese do neo-realismo. Enquanto os grandes estúdios de Hollywood vão buscar apoio nos militares para firmarem novamente suas produções no país, por outro lado, os cineastas italianos vão tentar retomar suas produções antes vetadas pelos telefoni Bianchi (‘telefones brancos’, como ficaram conhecidos os filmes do regime fascista). Daí surge a característica marcante dos filmes neo-realistas: a tentativa de se obter o máximo da realidade pra os filmes fugindo das perspectivas escapistas de Hollywood. Os temas recorrentes nos filmes é o trabalhador comum das cidades, as dificuldades da vida camponesa, o desemprego, a fome, a situação econômica e política, etc.
O filme de De Sica vai então retratar o desespero da população ante as constantes ameaças de bombardeios e confrontos que se tornavam cada vez mais habituais nas cidades e o despreparo de migrantes que formavam pequenos aglomerados para fugir da guerra e que muitas vezes passavam fome pela dificuldade em cultivar ou mesmo a escassez de alimentos. O filme ainda traz as conseqüências da Batalha de Monte Cassino ou A Batalha de Roma, que de um ponto estratégico serviu para o avanço das Forças Aliadas para a capital Roma e minar as principais bases das Forças do Eixo; e o registro de uma série de casos de estupros cometidos principalmente por soldados marroquinos que estavam nos exércitos aliados. Marcado por uma forte crítica aos regimes nazi-fascistas e a falta de ação política da própria população italiana, um filme intenso e marcante sobre a reconstrução de uma sociedade marcada e transformada pelos horrores da guerra. 

Um comentário:

  1. Muito bom esse texto. Você tinha que se profissionalizar logo nessa área... Parabéns!

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