É inegável o
poder da imagem fotográfica, uma fotografia tem amplos poderes. Ela pode mudar
os rumos de uma guerra, pode significar a queda de um governo, pode comover
milhões de pessoas ou simplesmente retratar algum aspecto banal da vida de
alguém. A fotografia desde que se estabeleceu no mundo das artes tirou das pintura
o status de “olho da história”; ela é
antes de mais nada o testemunho da História, de uma história. A fotografia tem
como uma de suas principais atribuições a construção da memória social, seja
retratando a glória nazista na Alemanha ou um simples álbum de família, a foto
é um ato nostálgico, não que queremos ser mergulhados no universo nazista
novamente, mas, é a sensação de que o passado é palpável, ali diante do
sujeito. A fotografia é a prova incontestável de que algo aconteceu (SONTAG,
2008). Não se ignora é claro o crescente uso de alterações digitais feitas em
fotografias, o fato é que, do todo uma parte é real e sempre devemos levar em
consideração que o ato de fotografar é limitado e pessoal sempre cabe ao
observador perceber não só a visão do fotógrafo, mas também, identificar o que
não foi captado na fotografia, o porque
daquele momento fotografado.

E, é partindo
desse ponto onde o sujeito olha o passado e se identifica com ele no seu
presente que surge a memória. Henri Bergson exemplifica esse complexo processo
da memória a partir do chamado cone da
memória. O cone funciona da seguinte forma: P é a realidade presente, A e
B são as memórias e S é o ponto de contato entre memória e
presente. Nesse ponto de convergência SAB
é que se cria a memória, com o tempo AB
se distancia de S, mas o contato
com a realidade nunca é desfeito, porque não se pode perceber ela pura. A
memória é sempre um chamado do presente, assim:
Esta
presentificação da fotografia indica um movimento, no sujeito que a vê, de
atualização de suas lembranças e, em um processo de contigüidade, de
aprofundamento da fantasmagoria que invade a vida com recortes do passado não
de todos visíveis na atualidade da foto. O que permite consolo ou tormento em
quem se debruça nas impressões que a foto trás. (Koury, 2008)
A memória é então, a presença do passado, a capacidade de reter idéias,
sensações, impressões adquiridas anteriormente; é lembrar a própria lembrança.
Outro teórico da memória foi o sociólogo francês Maurice Halbwachs, para ele a
memória ganha o aspecto de estrutura social, a memória é sempre coletiva. Ela
não deixa de ser uma atividade individual, mas, a construção da memória é
determinada pelos grupos sociais que categorizam o que deve ser lembrado, para
que os indivíduos se identifiquem socialmente. Partindo do código visual que a fotografia
fornece, a memória vai fornecer um sentido, um contexto histórico para a imagem
criando assim o fluxo da história. Que imagem melhor fornece um retrato do
Brasil durante a ditadura militar de 1964 do que a de um jovem quase ao chão
sob a mira do cassetete de dois policiais? A imagem que ilustra vários livros
didáticos demonstra exatamente esse ponto de conexão entre memória – fotografia
– história; refletindo as marcas desse período com extrema precisão. Ela também
pode criar um ícone, um mito de inspiração, assim como o retrato de Che Guevara
por Alberto Korda, passando da figura de líder guerrilheiro até se tornar um
produto da cultura pop. A fotografia é então o que o antropólogo Mouro Koury
chama de objeto de memória, que se apropria de uma determinada realidade dando
a ela uma definição de suas ações.
Esse poder atemporal que a fotografia tem vai construindo ao longo da
história uma complexa ideologia, muitas vezes mutável. Retomemos o exemplo da
icônica fotografia de Che Guevara. Após a morte de Guevara a foto se tornou um
símbolo da luta pelo socialismo, principalmente na América Latina, sempre
ligada à idéia do sucesso obtido pela Revolução Cubana; logo após em meados das
décadas de 1980/90 a fotografia ainda permaneceu como figura revolucionária,
vinculada as lutas sociais, luta contra a pobreza e a desigualdade social, a
diferença é que nesse momento vai se perdendo o teor socialista, como
conseqüência da queda do regime da URSS e das denúncias de violações de
direitos humanos e/ou civis em Cuba, depois a imagem vai ganhar o status de
produto pop, de caricato por si (no filme A
Taça do Mundo é Nossa do grupo humorístico Casseta & Planeta, Che é
achado vivo e escondido na floresta amazônica comandando uma fabrica artesanal
de camisetas estampadas com seu rosto). Hoje a imagem está ligada numa interseção
desses três sentidos ideológicos, e é nessa permanência, fusão ou mutação, que
o sentido da imagem fotográfica vai adquirindo, reformulando e excluindo suas
impressões sensoriais sobre o mundo. Vai se formando a memória coletiva.
Mas a fotografia também pode ser colocada como objeto do esquecimento,
podemos pensar nisso a partir de um ponto principal: o desenvolvimento
tecnológico. Ao tornar possível uma massificação da fotografia, no sentido de
que, o mundo-imagem passa a ganhar contornos ainda mais subjetivos. Ao tomar
pra si a especificidade de fotógrafo o sujeito passa a construir a suas
próprias idéias de mundo e a câmera digital leva essa idéia ao máximo. O não
depender mais de um intermediário torna qualquer um fotógrafo, pode-se
fotografar tudo, selecionar e dar acesso a qualquer pessoa através da internet
e a idéia de expressar sua visão de mundo através da fotografia ganhou ainda
mais força a partir das redes sociais. Essa grande mobilidade fornecida
favorece o esquecimento, com a enorme quantidade de imagens que somos expostos
diariamente não absorvemos todas elas, então deletamos momentos, sentimentos, situações, fotografias que nós
revelam um passado que queremos ou optamos por esquecer.
Esse ato quase divino, de intervenção sobre uma fração do tempo que nos dá essa
ilusão, a doce ilusão de que podemos de alguma forma dominar e controlar o
tempo. Então pra que serve a fotografia? Talvez Garry Winogrand tenha
descoberto a melhor resposta pra isso: “Fotografo para descobrir como algo
ficará quando fotografado”.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança dos velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Fotografia como objeto de memória: produto técnico e suporte ideológico na conformação do homem ocidental. Domínios da Imagem. Londrina: Ano I, nº 2, p. 101-106, maio de 2008.
SOTANG, Susan. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Fotografia como objeto de memória: produto técnico e suporte ideológico na conformação do homem ocidental. Domínios da Imagem. Londrina: Ano I, nº 2, p. 101-106, maio de 2008.
SOTANG, Susan. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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